Dando sentido à gestão >>> Capítulo 1
Aula 3 – O Sentido da Gestão e da Organização: História, Ciência e Perspectivas

1 Estabelecendo o contexto

Clegg, Kornberg e Pitsis (2005) abordam temas centrais em estudos organizacionais de relevância contemporânea apesar da natureza marcadamente histórica do texto. Os temas são apresentados um após outros e, ao final, imaginativamente alinhavados pelo fio condutor da chamada “terceira longa onda de mudanças cíclicas” originalmente demonstrada pelo do economista Nicolai D. Kondratieff (KONDRATIEFF e STOPER, 1935), devidamente adaptado aos propósitos dos estudos organizacionais com o auxílio de autores como Miller e O’Leary (2002), Shenhav (1995) e Abrahamson (1997).

Os temas centrais apresentados no texto são:
· a transição das formas tradicionais de produção para a burocracia;
· o significado do termo “mão-de-obra” nesse processo;
· o panoptipo, arquitetura proposta por Bentham como forma de controle e vigilância em diferentes tipos de organizações;
· os princípios da administração científica de F. W. Taylor;
· o contraponto feito por Henri Fayol a respeito da autoridade;
· as idéias de Elton Mayo sobre a gestão da colaboração;
· as idéias de Chester Barnard sobre gestão, liderança e as funções do executivo;
· a visão crítica proporcionada naquele tempo pelo trabalho de Mary Parker Follett.

No momento em que o leitor quase se convence ser o capítulo uma parafernália de idéias desencontradas, os autores introduzem a noção de ondas longas de mudanças cíclicas demonstrando com clareza que os temas tratados encontram-se relacionados por esse fio condutor, e são considerados como diferentes perspectivas de um único processo mais amplo. Visto assim, Taylor e Fayol passam a ser representantes de uma retórica racional da administração enquanto Mayo e Barnard tornam-se representantes da retórica normativa do ciclo de mudança (o termo “retórica” é empregado no sentido de linguagem utilizada para persuadir). Follet (1997) é considerada como representante de um questionamento crítico na medida em que relaciona gestão e justiça social.

Ainda que a idéia das ondas cíclicas de mudança esteja sujeita a criticas (Clegg, Kornberg e Pitsis afirmam que consideram essa idéia excessivamente determinista), tal artifício é mais do que suficiente para conduzir à principal conclusão do texto: há sempre interconexão entre as mudanças da sociedade e as inovações registradas no pensamento gerencial. Idéias sobre arranjos sociais – gestão e organização são vistos indubitavelmente como arranjos sociais – são sempre fortemente dependentes do contexto nas quais foram desenvolvidas. Um sentido da gestão (e organização) é finalmente apresentado (já que há outros sentidos da gestão presentes no texto) como da inovação e mudança oferecidas como soluções à sociedade num determinado contexto, como parte de um processo mais amplo. Juntamente com a possibilidade de questionamento crítico, esse aparece como sentidos nobres da gestão e organização quando comparados com os outros sentidos de controle, vigilância, auto-disciplina e liderança.

No Brasil, os sentidos da gestão e organização podem ser encontrados em muitos textos. Um deles é Fernando C. Prestes Motta (1979), uma lúcida descrição de como empresários brasileiros precursores construíram esse sentido da gestão em seu próprio contexto. Ao estudante da disciplina vale absorver a essência do texto de Clegg e companheiros e compará-la às condições brasileiras por meio do texto de Fernando Motta ou outros textos a serem pesquisados. Um bom exercício final seria encontrar exemplos contemporâneos nos quais os sentidos de gestão e organização estudados (não necessariamente as teorias estudadas, mas os sentidos da gestão que surgiram na época abordada pelo texto e que persistem até os dias de hoje) possam ser encontrados com destaque.


Referências bibliográficas
ABRAHAMSON, E. The Emergence and Prevalence of Employee Management Rhetorics: The Effects of Long Waves, Labor Union, and Turnover, 1875 to 1992. The Academy of Management Journal, v. 40, n. 3, Jum./1997, p. 491-533.
CLEGG, S.; KORNBERGER, M.; PITSIS, T. Managing and organizations. An introduction to theory and practice. London, Thousand Oaks, New Delhi: Sage Publications, 2005, cap. 1.

FOLLETT, M. P. A Empresa na Sociedade. In: PAULINE, G. Mary Parker Follett: profeta do gerenciamento: uma celebração dos escritos dos anos 20. Rio de Janeiro: Qualitymark, 1997, p. 285-300.
KONDRATIEFF, N. D.; STOPER, W. F. The Long Waves in Economic Life. The Review of Economics and Statistics, v. 17, n. 6, nov./1935, p. 105-115.
MILLER, P.; O’LEARY, T. Hierarchies and American Ideals, 1900-1940. The Academy of Management Review, v. 14, n. 2, Apr./1989, p. 250-265.

PRESTES MOTTA, F. C. Empresários e hegemonia política. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1979.
SHENHAV, Y. From Chaos to Systems: The Engineering Foundation of Organization Theory, 1879-1932. Administrative Science Quarterly, v. 40, n. 4, Dec./1995, p. 557-585.

2 Objetivos da aula

· Ao final da aula você será capaz de reconhecer as questões em torno das quais as idéias gerenciais foram desenvolvidas como soluções
· Também será capaz de compreender as contribuições de alguns pensadores fundadores em organizações e gestão
· Explicará os temas-chave no pensamento organizacional e gerencial
· Explicará o desenvolvimento histórico do pensamento organizacional e gerencial e os seus diferentes sentidos
· Discutir as diferenças e continuidades no pensamento organizacional e gerencial precursor
· Distinguir as idéias articuladas pelos primeiros pensadores e ser capaz de discuti-las criticamente

3 Leitura obrigatória

CLEGG, S.; KORNBERGER, M.; PITSIS, T. Managing and organizations. An introduction to theory and practice. London, Thousand Oaks, New Delhi: Sage Publications, 2005

Dando sentido à gestão no Brasil